Ao Padre Armando Tavares
Ao ler em O Concelho de Proença-a-Nova o seu testemunho, relembrei outro, idêntico, também de um padre.
Em 1965, tinha eu vinte anos, tomei conhecimento da doença oncológica de um jovem sacerdote, de vinte e três anos, José Ruivo dos Santos, o primeiro a ser formado no Seminário Maior de Portalegre. Viria a falecer dois anos depois, após grande sofrimento.
O seu exemplo de aceitação de tamanho sacrifício foi uma estrela que não deixou nunca de me iluminar.
Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Já não falava, mas comunicava por escrito. Guardo, como uma preciosidade, a carta que me escreveu pouco antes de partir. Nos momentos de maior angústia retiro do envelope as duas folhas de papel amarelecidas pelo tempo. As palavras abrem-se em flor e sinto-me aspergida por uma bênção balsâmica.
O testemunho do Pe. Armando, em tudo parecido, é também uma corajosa aceitação da vontade de Deus.
A serenidade com que partilhou a dor e a experiência da dureza dos dias que vive, são um depoimento intenso e resplandecente, daqueles que se conservam na memória como a aparição de uma graça.
Se ao longo de quarenta e seis anos não esqueci as palavras e o exemplo do Pe. José Ruivo, muitos outros guardarão, religiosamente, o recorte do jornal e voltarão a lê-lo sempre que precisarem de acreditar, de lavar a alma, de se purificar, de reinventar a coragem.
Agradeço-lhe as suas palavras. Estaremos em união com a generosidade da dádiva maior de uma dor aceite em toda a plenitude.
Conhece o milagre da vida, mas ensina-nos a grandeza do despojamento numa linguagem apaziguadora e de quietude.
Neste espaço que habitamos, caminhamos todos em direcção à ponte que nos conduz à outra margem. Porém, avançamos receosos, perdidos e confusos. O Pe. Armando vem ao nosso encontro, ilumina os nossos passos, serena os nossos medos, e dá-nos a mão.
E da fertilidade da sua dádiva brotam flores de uma profunda comunhão de amor, de verdade e de solidariedade.
Bem haja Pe. Armando!
Maria Leonarda Tavares