Dói porque faço doer
Contradições
Desde que os Missionários do Preciosissimo Sangue tomámos conta da paróquia de Proença-a-Nova, que recebemos como trabalho importante a continuação do jornal paroquial. Foi pedida a minha colaboração nesse sentido desde o primeiro dia. Foi trabalho que agarrei com decisão, escrevendo para todos os números e fazendo as sucessivas revisões. Posso dizer que ganhei um certo gosto pela escrita que em mim andava atirado para segundo plano. Muitos leitores me fizeram chegar ecos de agrado por aquilo que eu ia escrevendo. A todos agradeço o entusiasmo que me incutiram. Sei que nem todos gostaram de alguns arremessos da frontalidade que me é característica. Obrigado também a esses. Se me criticam é sinal de que me lêem. Como companheira de escrita tive quase desde o princípio a doença oncológica que entretanto se manifestou. São mais de 3 anos de uma luta intensa nem sempre fácil. Dou graças a Deus por esta experiência que me é dado estar a viver. Ultimamente a situação agravou-se e as metástases ósseas atingiram-me praticamente todas as vértebras, o que me trouxe também a tão temida dependência. Neste momento, dependo quase em tudo daqueles que me assistem. Preciso que me deitem, que me levantem, me façam a higiene pessoal e me ajudem num simples esticar ou encolher de pernas. Há coisas que fazemos ao longo de toda uma vida, sem as valorizar e que só apreciamos quando nos são impossíveis.
Amigo leitor, também deixei de escrever porque me falta capacidade para tal e há mais de um mês que não sou sequer senhor de abrir o computador. Agora escrevo-vos através de alguém que digitaliza o que vou ditando. É uma despedida custosa, podeis crê-lo mas também inadiável. Agradeço a todos os que me leram me estimularam e conhecedores da minha doença rezaram por mim. Deus tem-me concedido a sua graça e uma extraordinária força para continuar sereno no meio de todas as limitações. Não sei quando será o fim e aguardo-o até com esperança.
Faço minhas as palavras de S. Paulo na Liturgia de ontem: “Para mim viver é Cristo e morrer é lucro”. (Filipenses 1, 24).
Têm sido imensas as manifestações de carinho que me chegam e muitas as pessoas que se voluntariam para estar comigo. Há quem deixe o conforto da sua casa para zelar noites seguidas pelo meu bem-estar. Não querem que lhes agradeça e sei que o fazem numa atitude de um genuíno amor cristão. De todas as formas dói-me fazer doer aos outros. Dói-me que familiares e amigos tenham que sofrer comigo. Talvez fosse melhor partir mas que Deus seja servido.
Quando alguns continuam a acreditar num milagre que me devolvesse a saúde, eu cada vez mais tenho a certeza que milagre está a acontecer na força que Deus me tem dado. Tem sido tão forte a experiência espiritual que a doença me traz que creio que já não saberia viver sem ela. Voltar ainda a uma actividade plena implicaria uma fidelidade tal que duvido que seria capaz.
Termino com abraço a todos. A todos, conhecidos ou não, tenho nas minhas orações e enquanto Deus me conceder o dom da vida terrena estou aberto para ouvir e acolher aqueles que quiserem ou me puderem visitar.