Foi na Maljoga

05-04-2011 19:31

 Recriação da matança do porco

É uma tradição que faz parte da matriz cultural da nossa aldeia, da nossa região, e do país. Estamos atentos à perda de tradições e ao abandono das práticas que nos trouxeram até hoje, e por isso, quisemos recriar aquela que é uma das festas populares mais celebradas por todo o país. Festa sim, porque não tem de ser uma barbárie a festa da matança do porco.

 

Assim, nos dias 5 e 6 de Março, reunimo-nos, em festa, sob o patrocínio da tradicional matança do porco.

Foi bem cedinho como mandam os usos e costumes destas bandas que começou a festa, a festa sim, porque de matança só se viveu mesmo o que este ritual tem de melhor...o convívio e a partilha de momentos bem agradáveis da comunidade Maljoguense. Foi uma felicidade ver o povo (aqueles que ainda podem), em volta de um acontecimento, que para alguns já só faz parte das memórias da infância e da juventude, mas que ainda traz para a ribalta o que de melhor se vivia por dias da matança do porco. Os Antónios da terra: Balado, Lavrador e da Mata; não fizeram a coisa por pouco, mais o mestre de cerimónia mais conhecido pelo Zé da Várzea, e logo bem cedo trataram do cabeça de cartaz. Ajudados pelas mulheres mais aguerridas ao trabalho da aldeia: a Idalina, Elvira, a Carma e a Irene. O nosso tesoureiro Sr. Alfredo e o presidente da Direcção ficaram de olho a ver se não fugia nenhum presunto, com o Joaquim a fazer o registo fotográfico dos acontecimentos (modernices), entre outros que mais tarde se juntaram na ajuda das lides, pois era preciso preparar o dia seguinte.

E noutros tempos...o cheiro a carqueja queimada contrastava com o fumo do cigarro enrolado do Ti Manel da Ana,homem prático nestas lides. O café bem quente com um cheirinho de medronho, acompanhado de uns carapaus fritos em escabeche, logo pelas 6.30h, era coisa quase religiosa em todas as casas.

Depois de sangrado e eviscerado, era hora da lavagem das tripas na ribeira da Isna. Era tarefa das mulheres, que se juntavam num magote para despachar aquela tarefa nada fácil. Com os os pés na água, gelada, cantando umas modas, entre e esfrega da tripa com o limão, o sal e a laranja.... Enquanto os homens iam separando peça a peça, com real mestria: presunto para salgar, toucinho para fumar, orelhas, pés, chispes e o toucinho entremeado para a salgadeira. Farinheiras, morcelas, magros e mouros, entre outras delícias do fumeiro, lá se compunha a chaminé de aromas e texturas que faziam brilhar os olhos dos mais pequenos! Enquanto..., lentamente...ao som do estalar da esteva, em noites de inverno, subia o fumo branco e perfumado através das varas, transformando a carne verde em fumada bem saborosa...e que, de vez enquando...lá fugia uma ou outra, à socapa pelas quelhas, na algibeira de um amigo, ao que se juntavam logo meia dúzia de vizinhos e um garrafão de tinto para a paródia...

Já dizia o meu avô Sebastião, que cada pedaço do porco tinha seu sabor. E tinha razão! Sangue frito em cebolada, entretinho, laburdo,e umas assaduras, eram os manjares daquele dia, aonde nunca faltava uma sopa rica de grão e hortaliça para dar força para limpar o curral do animal que agora iria garantir o sustento até à próxima matança. Era pois, a hora de preparar novos aposentos ao próximo inquilino.

E para nós foi como que um regresso no tempo de outrora, mas agora de uma forma mais humanizada, que recriámos a matança do porco. Para que o mais rico património, o da memória, da tradição e dos valores, não se percam jamais, continuaremos a contribuir para a sua preservação e divulgação. Mas para isso, é preciso exercitar, reviver e partilhar aquilo que a vida nos oferece de melhor.

Prometemos repetir a iniciativa no próximo ano!

Rui Lopes,

Presidente da Direcção ACRDS Maljoga