Homenagem ao Padre José Alves
O Pe. José Alves nasceu, em Carvalhal de Proença-a-Nova, a 22 de Janeiro de 1919.
Familiares e amigos homenagearam-no, no passado dia 22 de Maio, em Coruche, onde foi pároco durante trinta anos, assinalando o trigésimo aniversário do seu falecimento.
O texto que se segue foi lido na missa dominical.
Lembrarmo-nos uns dos outros é um sinal de amor.
As coisas do coração não têm hora; vivem connosco, estão sempre presentes.
Apesar do Pe. José Alves ter partido para a eternidade a 16 de Maio de 1981, hoje e agora, é tempo, como em qualquer momento, de celebrarmos a sua vida. Por vezes o distanciamento encarrega-se de nos ensinar a assimilar e a processar vivências que a interiorização amadurece.

O primeiro momento, mais consciente, que guardo do meu tio padre é o da sua chegada à casa de meus pais, na nossa aldeia de Carvalhal, com guloseimas para os mais pequenos e um grande saco de arroz produzido nas lezírias do rio Sorraia. E ao serão ouvi-lo falar de Coruche.
E tantos anos depois estamos reunidos em nome da amizade que sempre nos uniu e de tudo o que a memória nos guardou. Decorreram trinta anos desde a sua morte. Que imagem conservo do meu tio?
Era um homem muito bom, de uma simplicidade tocante. Um grande amigo da família. O seu modo de habitar o mundo foi um testemunho de frugalidade e de essencialidade. Era disciplinado, firme, persistente, dinâmico, alegre e comunicativo. Não se deixou corromper pelos bens materiais.
Viveu uma espiritualidade assente na reflexão do quotidiano e na profundidade do seu relacionamento com o divino e com o humano. Viveu uma vida de partilha: partilhou as alegrias, as dores e os problemas de todos os que se aproximaram dele.
Viveu modestamente. Porém, o pouco que possuía foi generosamente dividido com os que ainda tinham menos. Viveu esquecido de si próprio. Sempre a pensar nos outros.
Esta Igreja está cheia de ressonâncias intensas e balsâmicas. Estive no lançamento da primeira pedra. Fui partilhando o grande sonho do meu tio até à inauguração, no dia 23 de Novembro de 1958. Tinha treze anos. Que festa memorável! Ao longo dos trinta anos da sua permanência em Coruche poucas vezes faltei à festa do aniversário a 22 de Janeiro. Reuníamo-nos todos para essa celebração.
Ele também esteve sempre presente nos momentos marcantes da vida familiar: baptizados, casamentos, funerais, alguns aniversários e em tempo de férias. Soube cultivar a arte do encontro. Foi muito congregador.
Ao preparar estas palavras apercebi-me de que no ano de 2011 completaria 80 anos de entrada no seminário de Vila Viçosa, 70 anos de ordenação sacerdotal, em Portel, 60 anos de tomada de posse como pároco de Coruche. E decorreram 30 anos desde o seu falecimento. Três décadas que hoje assinalamos.
Testemunhei o sofrimento dos últimos meses de vida. Aceitou-o com a fé, a coragem e a serenidade que lhe conhecemos ao longo de cada dia da sua existência.
Aos 62 anos, em pleno labor apostólico, cumpriu-se a vontade de Deus. Despedimo-nos dele nesta Igreja de São João Baptista. É muito aconchegante regressar e encontrar o Padre Elias; um conterrâneo. É uma espécie de arco-íris a unir Proença-a-Nova a Coruche. Sentimos, de certa maneira, uma continuidade muito nossa.
Os familiares e os amigos do Pe. José Alves agradecem-lhe o entusiasmo com que abraçou a iniciativa e a colaboração que nos ofereceu. Outro elo de ligação a Coruche tem sido, ao longo de todos estes anos, o Dr. Diamantino da Silva Diogo.
Foi um companheiro de infância e de juventude. Um amigo dedicado do homenageado.
A sua presença, no dia de hoje, está repleta de lembranças e de afectos. A nossa gratidão pelo apoio na organização deste singelo preito. E, finalmente, chegou a vez de dizer um obrigado muito especial e sentido.
O meu tio trabalhou incansavelmente na paróquia de Coruche. Porém, todos nós somos anjos de uma asa só. Apenas conseguimos voar abraçados. Se muitos sonhos dele se concretizaram foi porque houve pessoas que o incentivaram e trabalharam a seu lado.
Se houve grandes festas no dia do aniversário, que lhe permitiram acolher a família e os amigos, foi porque lhe ofereciam todas, ou quase todas as deliciosas iguarias que transformavam a mesa num grande banquete.
E até nos derradeiros e sofridos meses da sua vida, a amizade e o carinho que lhe dedicaram, foram um conforto e um reconhecimento que lhe deve ter aquecido a alma.
Não podíamos, portanto, deixar de agradecer, muito sinceramente, a todas as pessoas de Coruche que, de alguma forma, partilharam com ele os bons e os maus momentos e incondicionalmente o apoiaram.
Alguns, tal como ele, já partiram. Mas estão, certamente, connosco, aqui e agora.
Esta igreja é o lugar onde mais sinto a presença do meu tio. É o melhor lugar para lhe dizermos obrigado.
As flores que levámos ao altar no momento do Ofertório são as que o Pe. José Alves plantou ao longo da vida. Tudo o que generosamente semeou com o coração, floriu e deu sementes.
Que outra homenagem lhe poderíamos prestar, senão a de nos reunirmos em nome do que de bom aprendemos dele? Que outro local seria mais digno? Em que outro tempo senão o das flores?
O nosso bem haja a todos!
Maria Leonarda Tavares