O que me tranquiliza

01-03-2013 18:03

“é que tudo o que existe existe com uma precisão absoluta”.

 

Não para nos cravarmos na ignorância e ficarmos mudos a ver os dias passar, mas simplesmente para constatarmos que o que podemos fazer é sempre pouco num total que tende para o infinito; que podemos sacudir, mas nunca interferir com a perfeição com que fomos criados.

 

“o que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nem uma fracção de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete

tudo o que existe é de uma grande exactidão”.

 

Hoje, no meio de tanta boa disposição e simpatia, baixa o tom e diz entre lábios “doutora, é que eu fiz uns abortos, sabe…” E isto, ao quarto dia de internamento, fez-me encaixar uma peça no puzzle daquela mulher: acabamos desarmados quando remamos no sentido contrário. Tristeza é o que fica, mas convenientemente camuflada com paroxetina.

 

“pena é que a maior parte do que existe

com essa exactidão

nos é tecnicamente invisível”.

 

Talvez fosse mais fácil: eu saberia o que eles têm de doente, ela saberia o que levava no útero; sabia a molécula, sabia a sinapse, sabia porque é que está triste e porque é que não dorme. Sabia várias coisas mas, mesmo assim, sabia o essencial? O que é isto de estarmos aqui “plantados” que advém de nos equilibrarmos na “planta” dos pés?

A exactidão das coisas: o que nos dá o rumo é exterior a nós e não depende da nossa loucura. É uma âncora. É uma conversa amena que, às vezes, não é fundamental entendermos.

 

“o bom é que a verdade chega até nós

como um sentido secreto das coisas.

nós terminamos adivinhando, confusos,

a perfeição.”

 Frederica Vian Costa