Uma vida de trabalho
Vivemos hoje num tempo que, se o quisermos comparar com o passado recente, falamos de há 40/50 anos atrás, encontramos grandes diferenças. É certo que os tempos evoluíram e portanto nunca um tempo é igual ao outro. No entanto, a rapidez das mudanças nunca foi tão brusca, como agora. Essa rapidez fez com que essas diferenças, entre o presente e o passado, sejam mais acentuadas.
Isso é tão mais visível quanto ouvimos a geração dos mais velhos, hoje com 70 / 80 anos dizer: “no meu tempo era diferente…”, “no meu tempo é que era duro e difícil…” e por aí fora.
Ao conversarmos com eles, essa ideia da grande diferença é constantemente invocada. Essas mudanças rápidas levaram a que muitas vezes tenham dificuldade em entrar nos novos tempos e até mesmo aceitá-los.
Estivemos à conversa com a Dª Maria das Neves, da Foz do Pereiro. Uma mulher marcada pelas agruras da vida, pelo trabalho para criar 3 filhos e ainda os pais e os sogros que estiveram a seu cargo.
O que mais me impressionou, foi a alegria com que falava do trabalho, nunca ouvindo um lamento da sua boca, mas salientando os aspectos positivos e como isso a ajudou a dar mais valor àquilo que hoje tem.
Casou para a Foz do Pereiro e por lá ficou. Tem 88 anos. Uma vida de trabalho na agricultura, que naquele tempo era o sustento das famílias. Orgulha-se do passado e não fosse a doença que a veio visitar, a ti Neves ainda estava ali para as curvas, como ela diz. O sonho ainda faz parte da sua vida. Ler é neste momento a sua terapia. É de ficar fascinado com os seus conhecimentos, com os assuntos que aborda. Preocupava-a o facto de a sua cabeça a vir a trair. Esteve algum tempo desligada do mundo, mas recuperou e muita dessa recuperação se deve à sua força de vontade, determinação em viver e ainda contribuir para melhorar o mundo. Como? Como ela própria diz, através da oração. A fé! Este foi outro dos aspectos que me deixou sem palavras. Uma mulher de oração, que se orgulha de nunca ter faltado à missa, apenas em caso de força maior. Toda a vida era organizada em função do compromisso cristão. Zeladora da Sagrada Família, tem na família de Nazaré um modelo.
Entristece-a ver como hoje, com tanta coisa que ela não tinha no seu tempo, as pessoas estão insatisfeitas e ao invés de agradecer ainda se lamentam.
Falar, falar, sem parar. Podíamos estar horas a ouvi-la que não nos cansávamos.
Faz parte de uma geração de pessoas que aprendeu com a dureza da vida. Nunca baixou os braços, perante inúmeras dificuldades. Fala do passado com uma certa nostalgia e uma imensa alegria.
Muitas são as mulheres como a ti Neves, espalhadas pelas nossas terras a quem a vida muito exigiu, mas para quem a vida é uma bênção.
C.C.
